Protagonismo juvenil foi o ponto alto do Seminário que lotou auditório nesta semana; jovens listaram desde gravidez na adolescência e bullying até ausência de fiscalização como fatores que empurram crianças para o trabalho precoce
O que leva uma criança a trocar a escola pelo trabalho? A resposta veio de quem mais entende do assunto: os próprios adolescentes. Durante o Seminário das Ações Estratégicas do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (AEPETI), realizado em Jaguaruana/CE, jovens do município apresentaram um diagnóstico franco e maduro sobre as causas, consequências e soluções para o trabalho infantil na região.
O evento, promovido pela Prefeitura Municipal de Jaguaruana por meio da Secretaria da Assistência Social, com apoio do Ministério Público do Trabalho e coordenação da Rede Peteca, contou com a presença do Prefeito Municipal Elias do Sargento, do Procurador do Trabalho e Coordenador da Rede Peteca, Antonio Lima, e da Secretária da Assistência Social de Jaguaruana-CE, Fernanda Guimarães, além de lotar o auditório com educadores, rede de proteção e adolescentes do NUCA.
O QUE OS ADOLESCENTES DISSERAM:
1. PRINCIPAIS CAUSAS - "Não é só pobreza"
Para os jovens de Jaguaruana, o trabalho infantil não tem uma causa única, mas um conjunto de vulnerabilidades:
- Escola pouco atrativa: tempo parcial na escola, baixa atratividade, desinteresse e falta de motivação nos estudos. O bullying e a queda da autoestima fazem o jovem se sentir estranho no ambiente escolar, gerando aprendizado não consolidado e frustração que dificulta até o ingresso na universidade.
- Desinformação e herança cultural: a ideia de que trabalhar cedo é normal, passada de geração para geração, ainda persiste.
- Vulnerabilidades familiares e sociais: abandono familiar, dificuldade das famílias em educar os filhos nos dias atuais, gravidez na adolescência e preconceito contra adolescentes homossexuais, que gera discriminação e segregação familiar, empurrando o jovem para fora de casa.
- Falta de fiscalização: ausência de fiscalização nas atividades urbanas e rurais aumenta a informalidade e o uso de mão de obra barata e infantil.
2. PRINCIPAIS CONSEQUÊNCIAS - "A gente perde a adolescência"
Os adolescentes foram diretos ao apontar o preço que pagam:
"A gente perde a identidade de adolescente e passa a ter responsabilidade de adulto", resumiu um dos participantes.
Entre as consequências listadas: acomodação com a realidade que o trabalho impõe, abandono do crescimento intelectual e profissional, prejuízo educacional, desgaste psicológico e físico, diminuição da qualidade de vida e, o mais grave, a perpetuação do ciclo de pobreza e desigualdade.
3. O QUE ELES PROPÕEM - POLÍTICAS PÚBLICAS QUE FUNCIONAM
Longe de apenas criticar, os jovens apresentaram soluções práticas:
- Manter e fortalecer programas como o Pé-de-Meia e outras verbas sociais que incentivam a frequência escolar;
- Investir em espaços como a Fundação Onça Preta, citada como exemplo positivo por incentivar teatro, música, dança e atividades interdisciplinares, mostrando que "ser criança e adolescente é ser feliz";
- Diminuir a jornada de trabalho dos pais, tornando o ambiente familiar mais humanizado e aumentando a convivência em casa, para que os filhos se sintam mais assistidos como estudantes e cidadãos;
- Aumentar o vigor da lei, com fiscalização mais ativa dos casos de exploração do trabalho infantil;
- Tornar o dia escolar mais participativo, protagonizando o aprendizado e dando voz aos estudantes.
Para o Procurador Antonio Lima, Coordenador da Rede Peteca, a fala dos adolescentes comprova a importância do protagonismo juvenil na política pública: "Quando damos microfone para o adolescente, ele não traz um discurso pronto. Ele traz a realidade da rua, da escola e de casa. Jaguaruana hoje deu uma aula de como se constrói prevenção ao trabalho infantil ouvindo quem mais sofre com ele."







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